13/09/2007

"A gente não quer só comida"


Em que medida o processo civilizatório imunizou o ser humano de suas necessidades naturais? De outro modo, em que medida esse mesmo processo não radicaliza certos comportamentos animalescos como a agressividade e a competição? Até que ponto a civilização não desenvolve outras necessidades e as impõe aos grupos sociais? Essas são perguntas que levamos para a mesa do bar ou para a cabeceira da cama após assistirmos ao espetáculo Fome.


Produzido pela Companhia de Teatro O Cidadão de Papel, o espetáculo apresenta um conjunto de imagens, sons e movimentos que nos levam ao cotidiano da busca por saciar as necessidades mais básicas, sejam elas de cunho natural, sejam de cunho social. Inspirada na proposta do teatro do absurdo, a peça apresenta o cotidiano de dois moradores de rua que têm seus dias pautados pelo ponteiro do relógio. Só que esse relógio é comandado pelo próprio corpo.


A repetição das cenas poderia nos lembrar a crítica à sociedade industrial feita por Chaplin em seu filme “Tempos Modernos”. O mundo de Fome nos leva às piores conseqüências dessa sociedade: a produção de exclusão, de violência, de lixos materiais e humanos, de “Vidas Desperdiçadas” (BAUMAN). Entretanto, não deixa de fora um tipo de exclusão e violência que extrapola o mundo moderno: a dominação da mulher pelo homem através do recurso à força física.


As fomes artificialmente produzidas também têm espaço no espetáculo, sobretudo a fome por informação, mas uma das necessidades radicalizadas pela modernidade. E o mundo dessa fome artificial também é dividido entre os incluídos e os excluídos, ou seja, aqueles que têm acesso à informação e aqueles a quem é reservada a ignorância. Desses últimos, destacam-se os analfabetos, já que o valor no mundo moderno é dado à informação especializada.


Em cartaz no Centro Cultural Plataforma de 17 de agosto a 15 de setembro, o espetáculo é, sem a mínima dúvida, uma boa pedida para uma noite qualquer. Uma boa opção para matar a fome no cardápio de possibilidades de alimentação cultural da Cidade do Salvador.


Ficha Técnica:
Texto e direção: Leandro Rocha
Preparação de atores: Marcos Oliveira
Elenco: Luis Falcão e Marli Souza
Produção: A Cia O Cidadão de Papel

Texto Citado: BAUMAN, Zigmunt. Vidas Desperdiçadas. São Paulo: Jorge Zahar, 2005.

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