06/09/2007




O Rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas:
Um único problema vivido, duas soluções
pensadas







“Sonhar o pão toda manha / E ser aquele que mastiga / Sonhar o gosto do alimento
/ Se misturando na saliva / Aquele aroma que a gente sente / Pó de café na água
quente / Sonhar escola Senhor São Bento / Sonhar o tal discernimento / (...)
Sonhar a besta que em seu fastio / A fúria do começo viu / Sonhar o fogo do
quilarão / Que veio do ainda não / (...) Sonhar a porta da esperança / O entra e
sai da vizinhança / Sonhar o curso do marinheiro / Que navegou no muno inteiro /
Sonhar a lenda por cuja fenda / sabedoria nos assalta / Sonhar o mito que em
todo o rito / O filho ao parricídio ata.


Sonhar (sonho da
criança-futuro-bandido da favela, na noite de natal); Em: Jogos de Armar (CD),
Tom Zé, autores: Tom Zé e Sérgio Molina.





O filme documentário “O Rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas” conta a realidade de um dos conglomerados urbanos mais violentos do Brasil: a Região Metropolitana de Recife, em Pernambuco. É na Cidade de Camaragibe que toda a trama se desenrola. Uma cidade que sobrevive na dependência da capital - Recife. Nessa cidade onde a criminalidade ganha grande dimensão duas soluções são contrastadas. Soluções advindas das pessoas que vivem o problema, não das autoridades do Estado.


De um lado, um grupo de jovens, protagonizado por Helinho (um jovem justiceiro, acusado de ter matado 44 pessoas), acredita que a solução para a criminalidade é eliminar os criminosos (as almas sebosas). De outro lado, um segundo grupo, protagonizado por Alexandre Garnizé (músico que desenvolve trabalhos sociais), acredita que a solução está na melhoria da qualidade de vida da população, através do oferecimento de direitos básicos como educação, saúde e renda e da transformação propiciada pela arte.


Essa história, apropriada pelo filme, trás à tona grandes discussões da contemporaneidade. A descrença na justiça; a falta de políticas públicas que denuncia a ausência do Estado; a realidade em que fatores sociais, históricos, econômicos e políticos mergulharam, e ainda mergulham, a população brasileira, são alguns desses temas.


A descrença no aparato jurídico leva a uma atitude: fazer justiça com as próprias mãos. É por isso que, mesmo tendo confessado mais de quarenta assassinatos, Helinho ainda recebe apoio da população que chega a fazer um abaixo-assinado solicitando a sua soltura, pelos serviços prestados ao “bem” coletivo. A ausência do Estado, que também leva a essa atitude, também provoca uma segunda: tapar os buracos descobertos por esse. A ação social de Garnizé é exemplo desses tipos de iniciativa popular surgida para fazer aquilo que seria dever do Estado. A complexidade da realidade em que essas comunidades vivem também tem um conseqüente grave: a descrença na possibilidade de ser diferente, de mudar, o que torna as pessoas mais passivas em relação à construção de seu cotidiano.


Atirando no espelho


Alma sebosa, segundo os próprios jovens justiceiros, “é aquele cara que não serve pra nada, inútil”. Na tradução do delegado eles são “pessoas que não têm a conduta perfeita, desajustados”.


Alguém poderia perguntar: como os justiceiros identificam uma alma sebosa? Aí se encontra um paradoxo. A descrição que eles fazem é quase um auto-retrato. Eles observam elementos como roupa, brinco, tatuagem, boné, ou seja, as mesmas características utilizadas pelas forças do Estado que exterminam pobres, negros, moradores de bairros populares, homens e jovens como indicam os estudos sobre mortes violentas no Brasil. É como atirar no espelho. Isso demonstra o quanto os estereótipos de criminalidade estão disseminados em todas as camadas da sociedade, mesmo entre aqueles que pertencem ao grupo discriminado.


Essa é uma realidade freqüente em várias localidades do país. Dos atos de homicídio “direto”, a juventude é quem mais mata e quem mais morre. O homem é quem mais mata e quem mais morre. Os moradores de bairro popular são quem mais mata e quem mais morre. O afro-descendente é quem mais mata e quem mais morre. Obviamente isso mudaria se considerássemos “assassinatos indiretos” como fome, epidemias, desastres ambientais, guerras, etc.


Tal contexto pode levar, como se tenta fazer perceber, que aquela representação do criminoso acima exposta é valida, ou seja, que negros, pobres, jovens e homens são realmente pessoas suspeitas. Mas vale lembrar um princípio do direito criminal: “toda pessoa é inocente, até que se prove o contrário”. Ninguém está pré-determinado a ser criminoso. Teorias raciológicas já tentaram dizer o contrário, como as de Lombroso – na Itália – ou de nina Rodrigues – no Brasil. Elas foram superadas pelo código, mas nas mentes e práticas sociais elas continuam a influenciar.


Vulnerabilidade juvenil


O Rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas ilustra como a juventude brasileira, está vulnerável a toda a sorte de alegrias ou desgraças.


Alexandre Garnizé e Helinho, apesar de trilharem caminhos diferentes, estão imersos num mesmo problema: a ausência de perspectivas seguras de vida. Eles e tantos outros jovens que compartilham tal realidade fazem parte de um grupo estatístico nada agradável. O grupo dos que, em geral: incharão o índice de desemprego; terão os salários mais baixos; hegemonizarão as penitenciárias; utilizarão o Sistema Único de Saúde; terão os menores índices de escolarização; terão as menores expectativas de vida... Afinal, são homens, pobres e negros. Obviamente que isso não é um determinante, mas, infelizmente, é uma tendência observada nos estudos de desenvolvimento humano e de mortes por violência.


Quebrar esse ciclo é o desafio. Para isso é necessário considerar a complexidade em que o problema está inserido. Soluções isoladas só amenizam, mas não resolvem a situação. É possível sonhar, mas com os pés no chão!


Ficha técnica

Documentário: O Rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas (2001)
Produção: Raccord e Riofilmes
Direção: Paulo Caldas e Marcelo Luna
Tempo: 75 minutos, aproximadamente
Leo Vilas Verde
Foto: Litoral Norte - Bahia

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